Quem trabalha com móveis planejados conhece a cena. O projeto foi aprovado, a fábrica produziu, a equipe chegou para instalar e o armário não entra, porque o pedreiro mudou o ponto de tomada ou o piso subiu dois centímetros. Ou então o cliente olha a cozinha pronta e pergunta onde está a bancada de granito, que ele achava que estava no preço.
Nenhum desses problemas nasce na instalação. Eles nascem na proposta, quando ela diz “cozinha planejada, R$ 18.000” e deixa o resto para a conversa.
Uma proposta de interiores e marcenaria tem um trabalho que a maioria das propostas não tem: combinar, antes de começar, um projeto que depende de uma obra que você não controla. Abaixo está o que ela precisa deixar escrito.
1. A medida que vale é a do local, não a da planta
Planta de construtora é aproximada. Parede fora de esquadro, pilar que não aparece no desenho e ponto elétrico deslocado são a regra, não a exceção.
Escreva na proposta que o projeto é feito sobre a medição técnica no local, e que ela é a primeira etapa. Isso faz duas coisas: explica por que você não fecha o projeto antes de visitar o imóvel e tira de você a responsabilidade por medidas que o cliente passou por mensagem.
Se a medição é cobrada à parte quando o cliente não fecha, diga isso também.
2. O que está incluído, item por item
“Cozinha completa” não é escopo. Liste o que o cliente recebe:
- Medição técnica no local
- Projeto 3D com cores e acabamentos, com quantas rodadas de ajuste
- Projeto executivo, com medidas, materiais e ferragens de cada móvel
- Material (por exemplo, MDF de 18 mm no padrão escolhido) e o tipo de ferragem (corrediça e dobradiça com amortecimento, ou não)
- Entrega, montagem e instalação, por equipe própria ou terceirizada
- Garantia, com prazo e o que ela cobre
Quanto mais específico, menos espaço para “achei que vinha com puxador de alumínio”.
3. O que não está incluído (a parte que mais evita briga)
É aqui que mora a maior parte das discussões de obra. O cliente não sabe o que uma marcenaria faz e o que fica com o pedreiro, o eletricista ou a marmoraria. Escreva:
| Geralmente fica fora do orçamento de marcenaria | Por quê |
|---|---|
| Eletrodomésticos, cubas e metais | São do cliente; o projeto só prevê o espaço |
| Bancadas de pedra (granito, mármore, quartzo) | São de outro fornecedor, medidas depois dos móveis |
| Alvenaria, gesso, pintura e piso | Fazem parte da obra |
| Elétrica e hidráulica, inclusive mudança de pontos | Precisam de outro profissional |
| Iluminação e LED fora do projeto executivo | Entram só se estiverem descritos |
| Desmontagem e descarte de móveis antigos | Costuma ser um serviço à parte |
Listar o que não está incluído parece excesso de cuidado. Na prática, é o que impede o “mas eu achei que…“.
4. O que a obra precisa ter pronto antes da instalação
Esse é o ponto que mais atrasa entrega de planejado, e quase nenhuma proposta fala dele. Combine por escrito que, para a instalação acontecer, o ambiente precisa estar com:
- Piso, revestimentos e pintura finalizados
- Pontos de elétrica e hidráulica no lugar indicado no projeto
- Gesso e forro concluídos, se houver
- Nenhuma outra obra acontecendo no mesmo ambiente
- Acesso livre para a equipe e para o material
Com isso escrito, se a equipe chega e a obra não está pronta, a remarcação não é falha sua. E o cliente sabe disso desde o primeiro dia.
5. As etapas, e o que o cliente faz em cada uma
Um cronograma de planejados tem etapas que dependem do cliente. Deixe claro quais são:
- Medição técnica: o cliente libera o acesso ao imóvel.
- Projeto 3D: o cliente aprova, dentro das rodadas de ajuste combinadas.
- Projeto executivo: o cliente aprova o detalhamento final.
- Fabricação: o prazo começa a contar a partir da aprovação do executivo, não da assinatura da proposta.
- Instalação: vistoria final junto com o cliente.
O item 4 resolve uma confusão comum. Se o cliente demora duas semanas para aprovar o 3D, o prazo de entrega anda duas semanas. Sem isso escrito, a conta cai em você.
6. A regra de ouro: o projeto aprovado é o que vai para a fábrica
Ajuste é bem-vindo no 3D. Depois que o projeto executivo é aprovado e enviado para produção, mudar uma medida, um material ou o layout significa refazer peças. Isso custa material, hora de máquina e prazo.
Escreva isso com todas as letras: alterações depois da aprovação do executivo são orçadas à parte e podem mudar a data de entrega. Não é para assustar o cliente. É para que ele aproveite a fase certa para pedir mudanças.
7. Pacotes, quando o cliente está em dúvida
Muitas vezes o cliente quer saber quanto fica “só a cozinha” e quanto fica “cozinha e área de serviço”. Em vez de mandar duas propostas, mostre os dois pacotes lado a lado na mesma proposta, cada um com o que inclui e o seu valor, e deixe o cliente escolher ao aceitar.
Se você trabalha com entrada e saldo, defina a entrada de cada pacote. Uma entrada fixa que faz sentido para o pacote menor pode ficar desproporcional no maior.
Um modelo pronto com tudo isso
Montamos um modelo de proposta para arquitetos, designers de interiores e marcenarias com essas sete partes já escritas: o que está incluído, o que fica de fora, o que a obra precisa ter pronto, as etapas com o que o cliente faz em cada uma e a regra das alterações depois do executivo. É só trocar pelos seus materiais, prazos e valores.
Se quiser ver como fica do lado do cliente antes, abra o exemplo.
No Propora, a proposta vai por link: você vê quando o cliente abriu e o que ele leu, e ele aceita por ali mesmo, escolhendo o pacote quando houver mais de um. As cobranças da entrada e do saldo já saem do aceite.